A Herança do Judô de Jigoro Kano

Autoria do Sensei Paulo Nogueira

A Herança do Judô de Jigoro Kano
08/04/2021 - Sou Paulo da Silva Nogueira Filho.

Quando nasci, meu pai (Dr. Paulo - na foto com a espôsa, Ivone) não possuía um doutorado acadêmico, mas sim era um engenheiro mecânico eletricista e civil. Mais tarde, ele também se graduou em Economia na Fundação Getúlio Vargas. O ‘Dr.’ antes de seu nome era um título honorífico que levou por toda sua vida e, que na minha parcial opinião, fez por merecer.

Meu pai - desde sua infância, como filho de Petrópolis, cercado por montanhas do mais puro granito - praticava escalada a mão livre e ciclismo de montanha. Época essa muito anterior à definição de regras dessas futuras modalidades esportivas. Com esta preparação atlética, e sendo autodidata, descobriu e passou a praticar a luta da época: o boxe.

Um dia, em Petrópolis, cidade imperial, ele presenciou a exibição de uma luta, em que o mais forte dos lutadores da cidade, que era um carregador de caixotes de cerveja, foi facilmente derrotado por um lutador muito menor.

O vencedor era praticante da exótica luta japonesa, que outrora associada a um dom intrínseco ao indivíduo, hoje é ligada ao ensinamento metódico de treinamento desenvolvido por Jigoro Kano: o judô.
 
O futuro Dr. Paulo, aos 18 anos, entendeu naquele dia a inutilidade de um físico desenvolvido frente a um adversário com técnicas mecanicamente eficientes e treinadas através de um método disciplinado e cooperativo. Esse tipo de educação promovido por essa luta é uma amostra da mentalidade que resgataria o Japão arrasado pela segunda guerra, e que elevou o país à segunda potência mundial.
 

A aposta do Japão

O Japão era, até o século XIX, um país asiático sui generis, ou seja, ao contrário dos outros países desse continente, naquele momento, tinha tendências nacionalistas e isolacionistas.

Assim como na nossa história Brasileira, a Europa também tentou contato com o Japão nos longínquos anos de 1500. O país asiático, entretanto, optou por comércio mínimo e por desenvolver a própria tecnologia em decorrência de seu nacionalismo. Esta é, como a história demonstra, uma aposta perdedora e que cobra preço alto no futuro.

A consequência negativa dessa decisão ficou evidente após 4 séculos, quando Samurais munidos de Katanas tiveram que enfrentar a navegação americana cercada de vapor e aço.
Apesar da estratégia eticamente maravilhosa, era tecnicamente inadequada frente à tecnologia armamentista americana, o que forçou a abertura do Japão ao comércio mundial. Esse erro foi rapidamente detectado, corrigido e nunca mais repetido. Que inveja!

Para superar o déficit causado por séculos de isolamento (erro repetido por China, URSS e Brasil), houve um esforço nacional nipônico de um movimento de ocidentalização e aperfeiçoamento. Os resultados não se fizeram tardar: o atraso foi recuperado - o que deu base, em um prazo de décadas, para o Japão assumir a vanguarda da inteligência industrial com o Just In Time, o Kanban e as ilhas de produção * , i.e., métodos industriais que superaram os defeitos do fordismo** existente.

O método

A herança do Judô
JK, Jigoro Kano, era pacifista, internacionalista, educador e atleta. Ele nasceu em uma época que essas qualidades eram vistas com maus olhos. Ele queria implantar no país uma educação de acesso a todos com métodos calcados em respeito às tradições e em busca incessante à perfeição. No contexto do país comprometido com atualização, JK teve a oportunidade de colocar seu plano em execução.

O embrião de todo este progresso é, como de costume, uma mente privilegiada: Jigoro Kano, ao alcançar o cargo de Ministro da Educação, aplicou a ética do Caminho da Perfeição nas escolas japonesas, através de esportes especialmente desenvolvidos para isso.

JK, vivendo nesse momento de transição, transformou a realidade ao desenvolver um método de educação sistemática integral (física e intelectual) com primazia da ética a partir da mais tenra idade. Hoje, os seus princípios de educação são utilizados por todos os países bem-sucedidos.

E quanto ao Brasil?

O Brasil, gigante adormecido, está dentre os dez maiores países do mundo em princípios econômicos. Além de ter um grande Produto Interno Bruto, possui vantagens nos quesitos: população, unicidade da língua, terras agricultáveis, clima, relevo e hidrografia. Porém, os brasileiros têm o péssimo hábito de apostar contra o mundo:
 quando houve a revolução industrial, apostamos na agricultura;
 na revolução informática, apostamos em tecnologia própria;
e na globalização, apostamos no mercado interno.

Enquanto o Japão recuperou os 400 anos de isolamento com rapidez e coesão, o Brasil ainda não se posicionou em relação aos seus 500 anos de atraso. Apesar de nosso país estar dentre os ‘top 10 da economia’, mal chega ao ‘top 100 do comércio’.

Quando, no mundo inteiro, o perfeccionismo dos professores dá ritmo e consistência ao saber, nós apostamos na adaptação dos professores aos ritmos e às necessidades dos alunos.

Eu, como educador, ao citar a educação asiática como exemplo a ser seguido, diversas vezes ouço como resposta: “como assim, copiar algo deles quando a nossa educação é, sem dúvida, melhor?

O JK Nipônico e o JK Tupiniquim

De tempos em tempos o mundo é agraciado com pessoas geniais. No Japão, o Sr. JK - Jigoro Kano - é, além de criador do Judô, o pai da educação física, o incentivador do esporte olímpico e um educador, cujo método deu a base à cultura da perfeição nipônica. O perfeccionismo japonês é mundialmente reconhecido desde a qualidade do aço, a tecnologia dos carros, dos eletrônicos e, até mesmo, do comportamento das plateias de futebol.

O Brasil também teve seu JK - Juscelino Kubitschek. O presidente também era pacifista,  internacionalista e desenvolvimentista. Apesar de seu esforço de levar o Brasil na direção do desenvolvimento, nos livros de história Brasileiros tem seu nome injustamente associado apenas à corrupção, à inflação e ao “entreguismo” das riquezas nacionais ao pretenso capitalismo explorador.
O esforço industrial global feito por Portugal de 1500, pela Inglaterra de 1700 e pelos EUA de 1900 ainda não chegou ao Brasil dos anos 2000.

Ao longo de nossa história, imensos esforços foram feitos - tanto no campo político quanto no campo legislativo e institucional - para evitar a participação do nosso país no desenvolvimento e comércio do resto do mundo. O fato desse esforço contrário ao desenvolvimento ser acobertado por nossa retrógrada educação demonstra a nossa capacidade de remar contra a correnteza e nossa inteligência para manobrar neste sentido.

Minha proposta, que não peca pela originalidade, é que deixemos de por nossa inteligência a serviço da burrice e passemos a valorizar as pessoas que querem fazer o nosso país crescer.

Voltemos à origem

A Herança do Judô de Jigoro Kano
Paulo Nogueira com a esposa Cristina, o filho Thales e filha, Laís.

Quando meu pai, a contragosto de sua família, subiu a serra rumo a Minas Gerais para estudar, sentiu, por experiência própria, a dificuldade de lutar contra a corrente.

Até os últimos dias de sua vida, pregou - assim como Jigoro Kano - que os grandes gênios da educação deveriam estar na Educação Infantil, ensinando nossas crianças, ou seja, moldando as mentes ainda em formação. Ele, apesar de não ser um gênio, aplicou essa crença nas futuras gerações de sua família, educando seus filhos e netos desde a primeira infância.


Os resultados de seu esforço podem ser vistos nas conquistas de seus sucessores:
 O seu primogênito tornou-se advogado e chegou ao cargo de Vice-presidente da
Federação Mineira de Judô - FMJ.
 O seu caçula graduou-se em Direito, Engenharia mecânica e Educação Física. Esse, atuando como engenheiro, certificou as duas primeiras indústrias de combustível nuclear do Brasil.
 Seu primeiro neto, a única pessoa da terceira geração com quem teve contatoantes de seu falecimento, tornou-se um engenheiro Anglo-Brasileiro (o famoso diploma sanduíche) e, atualmente, trabalha numa startup unicórnio (empresas com valor de mercado de mais de 1 bilhão de dólares) na capital de São Paulo.

Ao conhecer aquela luta em Petrópolis aos seus 18 anos, Dr. Paulo aprendeu não apenas uma nova modalidade esportiva, mas também uma bela filosofia e método de aperfeiçoamento pessoal que influenciou positivamente a criação de toda a sua família. Essa é a minha herança pessoal do Judô: uma arte cuja essência de prosperidade e benefícios mútuos pode transformar a forma como encaramos a educação no Brasil

* Just in time, Kanban e ilhas de produção – sistemas que possibilitam estoques mínimos e ligação entre pessoa que produziu e o produto.
** Fordismo – produção em linha de montagem que teve os seus defeitos imortalizados no filme “Tempos  Modernos” de Charles Chaplin