Judô para pessoas com Deficiência Intelectual e Síndrome de Down

A força do Judô

Judô para pessoas com Deficiência Intelectual e Síndrome de Down
02/09/2020 - Vocês sabiam que o judô é uma excelente modalidade para o desenvolvimento dos alunos com deficiência intelectual e com síndrome de Down? 

No entanto, sabiam que têm alguns cuidados em relação aos candidatos a judocas com síndrome de Down?
 
No grupo das pessoas com deficiências, a deficiência intelectual é uma das que mais prevalece na população mundial. Estima-se que, aproximadamente, 5% das pessoas do mundo apresentam a deficiência intelectual. 

Entretanto, pela “aparência física”, muitas vezes não conseguimos distinguir se a pessoa tem a condição de deficiência intelectual ou não, com exceção da síndrome de Down: consiste em um grupo de pessoas com deficiência intelectual e que apresenta características específicas.

O Papel do Sensei

Judô para pessoas com Deficiência Intelectual e Síndrome de Down
De acordo com a American Association on Mental Retardation, a deficiência intelectual caracteriza-se por um funcionamento intelectual significativamente abaixo da média, com limitações associadas a duas ou mais áreas de condutas adaptativas, como comunicação, cuidados pessoais, habilidades sociais, dependência na locomoção, habilidades acadêmicas, relacionamentos afetivos, dentre outras.
 
O judô é uma excelente ferramenta para se desenvolver essas condutas adaptativas, principalmente em relação aos comportamentos sociais. 

O sensei tem papel fundamental na conduta do aluno em relação à atenção, ao carinho e respeito e, ao mesmo tempo, estabelecendo limites importantes na convivência social.
 
A prática do judô para alunos com deficiência intelectual vai auxiliar para esses atletas na comunicação, nos cuidados pessoais, nas habilidades sociais, na locomoção, saúde e segurança.

Atenção e Apatia

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Uma dificuldade em relação a esse grupo de judocas consiste em problemas de atenção e apatia para aprender. 

Neste sentido, algumas das dicas para o sensei seriam:

 Mudança no tom de voz do sensei durante os treinamentos;

 Realização de brincadeiras durante a orientação. Para trabalhar com judocas com deficiência intelectual é necessário ter habilidades para chamar atenção e ser criativo;

 Apresentação de novidades e desafios. Lembre-se que os judocas devem ser capazes de alcançar os desafios;

 Posicionamento adequado do sensei no dojô, principalmente no momento da explicação, por exemplo, estando num nível diferente dos judocas;

 Emprego de materiais que emitam sons, de materiais de cores diferentes e que sejam atraentes.

Metas e Objetivos

Judô para pessoas com Deficiência Intelectual e Síndrome de Down
Além dessas sugestões é interessante o reconhecimento das seguintes propostas:

 Concisão e clareza na apresentação de informações;

 Uso de diferentes materiais, com tamanhos, pesos e cores diferentes;

 Utilização de diferentes canais sensoriais para transmissão da mesma informação;

 Associação de conceitos concretos utilizando, principalmente, a realidade do judoca;

 Utilização, num mesmo treino, de poucas informações que tenham que ser processadas pelos judocas. Dar um tempo para que informações novas sejam processadas;

 Criar oportunidades de realização de tarefas com sucesso;
Insistência para que o judoca tente realizar a tarefa. Utilizar elogios e meios motivacionais;

 Estabelecer metas (metas que os judocas possam alcançar).

Aprendizados Diferentes

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As pessoas com deficiência intelectual apresentam vários níveis de comprometimentos impossíveis de detalhar individualmente. 

Portanto, é importante o sensei conhecer o judoca com quem está trabalhando, a fim de criar estratégias de aprendizagem específicas para cada sujeito.
 
Em relação à Síndrome de Down, devemos fazer algumas considerações!
 
Não são todos os alunos com síndrome de Down que podem fazer judô. 

De acordo com a literatura, 10% das pessoas com síndrome de Down apresentam uma instabilidade atlanto axial (região do pescoço). Isto é um desalinhamento da coluna cervical, localizado na C1 e C2. Este desalinhamento é muito perigoso!

Atestado e Laudo Médicos

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Neste sentido, para a prática do judô de alunos com síndrome de Down é OBRIGATÓRIA a exigência de atestado médico e laudo comprovando a ausência da instabilidade atlanto axial. 

O laudo se faz a partir de uma radiografia do pescoço do aluno e o atestado de um ortopedista.
 
Agora, existem algumas características que não são comuns em todos os casos de judocas com síndrome de Down, mas devem ser observados pelo sensei:

a) Hipotonia – pouco tônus muscular. O judô pode ser um excelente meio para se estimular o desenvolvimento do tônus muscular, principalmente de crianças com a síndrome de Down.

b) Obesidade leve a moderada – muitos judocas com síndrome de Down apresentam distúrbios hormonais, principalmente relacionados à tireoide. A prática do judô é excepcional para o aumento do metabolismo desses atletas.

c) Sistemas respiratórios e cardiovasculares subdesenvolvidos. Com um laudo dando apto à prática do judô, esse é excelente instrumento para o desenvolvimento cardiovascular e respiratório.

d) Hipermobilidade das articulações – excesso de flexibilidade e fragilidade dos ligamentos nas principais articulações do corpo. Essa característica exige cuidado do sensei na prática do judô, mas não impede a prática desse esporte.

Técnicas Especiais

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Não devemos ensinar técnicas de shime-waza (estrangulamentos) e nem kansetsu-waza (chaves de braço) para judocas com deficiência intelectual, por questão de entendimento da dosagem de força e o momento de parar de aplicar as técnicas.
 
Os judocas com deficiência intelectual e síndrome de Down, estando aptos com relação aos aspectos da saúde, devem praticar o judô. 

É importante somente observar as adaptações necessárias e sempre criar meios de motivação.
 
A entidade de Belo Horizonte, ADEVIBEL/SUPERAR (filiada à Federação Mineira de Judô), além de atletas com deficiência visual, também ensinam judô para atletas com deficiência intelectual.
 
Texto de Marcelo de Melo Mendes (5º Dan)
Professor de Educação Física / Psicólogo; Mestre em Educação; Especialista em Treinamento Esportivo / Técnico da ADEVIBEL / Gerente de Paradesporto (Programa SUPERAR) da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer.