Judô para deficiente visual

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A primeira modalidade de lutas nos jogos paralímpicos

Judô para pessoas e atletas com deficiência visual
20/07/2020 - Você sabia que pessoas com deficiência visual podem praticar o judô? Sabia que existe uma entidade filiada à Federação Mineira de Judô (FMJ) que trabalha com esse esporte para cidadãos que apresentam algum tipo de deficiência visual em Belo Horizonte?
 
Qualquer pessoa com deficiência visual, seja cega ou com baixa visão, pode e deve praticar o judô. Existem entidades inclusivas e responsáveis pela organização dessa modalidade de esporte nas instâncias municipais, estaduais, federal e até internacional.
 
Na capital mineira, a entidade que desenvolve e pratica o judô com pessoas que apresentam deficiência visual é a Associação de Deficientes Visuais de Belo Horizonte, a ADEVIBEL, filiada à FMJ.

Judô para formação pessoal e inclusão social

Judô para pessoas e atletas com deficiência visual
Em entrevista, o professor de judô inclusivo da ADEVIBEL, Marcelo de Melo Mendes*, explica que a prática do judô para alunos com deficiência visual pode ter dois significados:

· Em primeiro lugar, destacam-se contribuições diretas das atividades no desenvolvimento global do indivíduo, com perspectivas de formação pessoal, participação social e melhoria de desempenho;

· Em segundo lugar, torna-se imprescindível a promoção de ações voltadas para a conscientização da sociedade em relação às potencialidades de pessoas com deficiência visual.

Desenvolvimento físico e mental

Judô para pessoas e atletas com deficiência visual
Marcelo pondera que o judô é um esporte de fácil adaptação para o deficiente visual e pode trazer muitos benefícios a partir da sua prática. Dentre essas benesses, o professor destaca:
 
· Auxilia no desenvolvimento dos sentidos de orientação espacial;

· Desenvolve a sensibilidade auditiva;

· Cria oportunidade de treinamento do tato;

· Desenvolve a propriocepção (capacidade em reconhecer a localização espacial do corpo, sua posição e orientação);

· Desenvolve a autoconfiança;

· Melhora a autoestima;

· Melhora as capacidades físicas, como força, resistência, flexibilidade e os equilíbrios estático e dinâmico;

· Diminui o risco de lesões, com o aprendizado dos educativos de quedas e melhora da mobilidade e orientação.

Ambiente e metodologia

Judô para pessoas e atletas com deficiência visual
O professor Marcelo apresenta mais detalhes. “Com relação à adaptação, existem poucas alterações em comparação ao judô regular. A principal diferença, em relação à regra, é que o judoca com deficiência visual deve manter o contato com o seu adversário o tempo todo. Isto é, a pegada é essencial numa luta de judô para deficientes visuais”.
 
Existe um padrão internacional da arbitragem do judô para conduzir o atleta com deficiência visual. No entanto, no dia a dia, é muito simples: basta perguntar para o judoca se ele quer ser conduzido e se posicionar ao lado dele. O judoca cego ou com baixa visão pode segurar em seu braço ou no seu ombro”.
 
A participação do sensei no treino e nas competições é muito importante, seja na orientação espacial dos atletas, nas informações sobre o tempo de luta, nas correções técnica e tática e nos estímulos com orientações verbais”.
 
Marcelo também salienta as principais adaptações do ambiente e as metodologias utilizadas para o trabalho em uma aula de judô para atletas com deficiência visual.
 
Para começar, o melhor treino para o atleta com deficiência visual consiste no treino inclusivo com atletas que não possuem a deficiência. Para que esse treino dê certo, todos os envolvidos têm que ´buscar` o parceiro deficiente visual. Isso se traduz em auxiliar o sensei nas correções e não deixar que o atleta deficiente visual fique sem parceiro de treino”.
 
É essencial que no dojô, além dos tatames, existam proteções de ´estofados` na parede. Além disso, é importante que a sala esteja bem iluminada, para aproveitar todo o resíduo de percepção de luz do nosso aluno, e que esta iluminação não seja excessivamente forte”.

Reconhecer o local

Judô para pessoas e atletas com deficiência visual
É fundamental que nos primeiros dias de treino, faça-se um reconhecimento do local do treinamento com o aluno. Não somente da sala de judô, mas das localizações dos vestiários, de bebedouros, das salas administrativas e reconhecimento de espaços que possam ser perigosos, tais como escadas, pilastras, rebaixamento de teto, dentre outros”.
 
O sensei jamais deve esquecer que o atleta tem um déficit do estímulo visual. Ao mesmo tempo, deve aproveitar todo o resíduo da visão do judoca e utilizar estímulos sonoros para orientar o atleta com deficiência visual”.
 
É importante ter ciência de que algumas metodologias de trabalho e de conhecimentos são adquiridas através da prática. Outro aspecto que nunca deve ser esquecido é o de conversar e escutar o seu atleta, a fim de que seja estabelecida uma relação de diálogo, na qual o sensei e o aluno se posicionem enquanto sujeitos da aprendizagem”.

O importante papel social da ADEVIBEL

Judô para pessoas e atletas com deficiência visual
O professor Marcelo também fez uma explanação sobre o que é a ADEVIBEL.
 “A Associação de Deficientes Visuais de Belo Horizonte, a ADEVIBEL, foi criada em 27 de novembro de 1985, por um grupo de amigos deficientes visuais, com o propósito de a pessoa com deficiência visual ser protagonista da sua história. As ênfases eram no mercado do trabalho, no esporte e na participação política. O judô da ADEVIBEL iniciou-se ao final de 1994, sendo o sensei Marcos Vinícius o responsável pelos treinos”.
 
Ao final de 1999, atendendo a um convite de José Carlos Dias Filho, um dos fundadores da ADEVIBEL, eu fui nomeado e iniciei a minha trajetória como técnico da Associação".

Judô para pessoas e atletas com deficiência visual
Judô para pessoas e atletas com deficiência visual

Fábrica de Campeões

Judô para pessoas e atletas com deficiência visual
"A partir dali, a ADEVIBEL começou a obter resultados importantes, como um título no Campeonato Brasileiro de Judô para Cegos e Deficientes Visuais, em 2001; classificações enquanto equipe nos Grand Prix Brasil de Judô para Cegos e Deficientes Visuais; conquistas de atletas em Jogos Paralímpicos, Copas do Mundo, Campeonatos Mundiais, Jogos Panamericanos, Campeonatos Brasileiros e Jogos Escolares Nacionais”.
 
A principal referência enquanto atleta é a judoca Deanne Silva de Almeida, 14 vezes campeã brasileira, campeã Parapanamericana em Toronto/15, bronze Parapanamericano no Rio 2007 e em Guadalajara 2011; bronze nos Campeonatos Mundiais da Turquia/2010 e na Coréia do Sul/2015; prata nas Paralimpíadas de Beijing/China 2008 e 5º lugar em Londres/2012 e Rio/2016”.

Judô para pessoas e atletas com deficiência visual
Judô para pessoas e atletas com deficiência visual

Judô inclusivo

Judô para pessoas e atletas com deficiência visual
Atualmente, os atletas destaques do judô da ADEVIBEL, além da Deanne, são os judocas Regina Dornelas da Costa (ex. atleta da Seleção Brasileira; três vezes campeã brasileira); Daniel Batista Santos Pereira (campeão dos Jogos Escolares Nacionais/2019); Andrielle Ribeiro Gomes (3º lugar dos Jogos Escolares Nacionais/2018); Emerson Junio Correia de Aguiar (2º lugar dos Jogos Escolares Nacionais/2019); Diego J. Silva (3º lugar no Grand Prix Brasil de Judô para Cegos e Deficientes Visuais/2019)”, finalizou Marcelo Mendes.
 
* Marcelo de Melo Mendes (5º DAN) é Professor de Educação Física e Psicólogo; Mestre em Educação; Especialista em Treinamento Esportivo / Técnico da ADEVIBEL / Gerente de Paradesporto do Programa SUPERAR, da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer de Belo Horizonte.